Mulheres, desvios mentais e modernização da Bahia no início do século XX

Mulheres, desvios mentais e modernização da Bahia no início do século XX

Aline Santos Oliveira Santos

 1.Introdução

Este artigo tem o objetivo de estudar as mulheres e as questões de gênero dentro do contexto das características e significados da loucura e desvios mentais para a ciência médica e social no final do século XIX e inicio do século XX, e as conexões entre a psiquiatria e o projeto modernizador e normatizador no Brasil, especificamente na Bahia, utilizando como método de análise histórica, o materialismo histórico dialético.

 De modo geral, através do posterior aprofundamento do tema, podemos estudar, outras temáticas similares que poderão solidificar as bases discutidas no corpo deste trabalho. Podemos enumerá-los como segue: o processo de institucionalização da loucura e as relações da psiquiatria e a medicina legal/criminal;os aspectos da loucura em mulheres, identificando-as, posicionando-as social,cultural, intelectual e economicamente;o contexto histórico precedente ao tema especificamente trabalhado.

 Este trabalho pretende investigar, estudar e oferecer informações sobre questões relacionadas às mulheres dentro do contexto das características e significados da loucura e desvios mentais para a ciência médica e social no final do século XIX e inicio do século XX, e as conexões entre a psiquiatria e o projeto modernizador e normatizador no Brasil, especificamente na Bahia.

 Tendo como objetivo geral, e ponto de partida, a proposta deste artigo é contextualizar os pontos principais de coerência e de contradição da ciência médica, em especial o advento da psiquiatria, no final do século XIX e inicio do século XX, fazendo conexão com um artigo publicado na Gazeta Médica da Bahia, pelo então Doutor e representante internacional da Psiquiatria brasileira, Juliano Moreira, ao participar das seções de psiquiatria do XIII Congresso de Medicina de Paris. Desta premissa inicial, decorrem os objetivos específicos de caracterização da proposta modernizadora de sociedade e os contrapontos com a sociedade vigente, ainda senhorial, bem como destacar as quaestões de gênero dentro das “novas ciências” que emergiam com o pressuposto de progresso e civilidade do Brasil e da Bahia republicana.

 O estudo sobre “Mulheres, desvios mentais e modernização da Bahia no início do século XX”, pode ser descrito e apresentado como o trabalho final de conclusão de curso da disciplina de História da Bahia, cursada na Universidade Católica do Salvador,como fruto da orientação e sensibilização, e fomento à pesquisa, para a produção de ensaios historiográficos,conduzido pelo professor Dr. Alfredo Matta, que ministra a disciplina referida.

 Primeiramente, o trabalho apresenta um contexto histórico anterior ao século XX.Um breve histórico sobre a loucura e doenças mentais na Idade Média, situa o leitor, de forma sintetica, nas diversas fases e conotações em que a loucura é associada, e na sociedade como um todo, inclusive o momento chave em que a discussão sobre tais questões chegam ao territorio brasileiro, ainda no periodo colonial.Dentro da demarcação do contexto historico, situamos, posteriormente, o contexto historico e social do Brasil, e da Bahia pré e republicana, em especial nos fins do século XIX, propondo a caracterização desta sociedade senhorial e a proposta de modernidade que advem com as conexões politicas e culturais potencializados pelos ideais de nacionalização e normatização da sociedade baiana.Um breve histórico sobre a psiquiatria na Bahia, é colocado, posteriormente, abrindo espaço para o dialogo seguinte com as fontes primárias.

 A segunda parte do trabalho referente à caracterização da mulher no contexto histórico do século XIX, e as pretensões modernizadoras no que tange às questões de gênero que passam a ser “aceitáveis” e “normatizadoras” na então sociedade baiana.A etapa posterior é dialogar com a fonte primária, intercalando e aplicando as praticas e observações metodológicas necessárias para estabelecer um ensaio historiográfico nos moldes do materialismo histórico dialético.Ao final do desenvolvimento do trabalho, uma pequena síntese dos resultados, servira como premissa para consolidar a avaliação e conclusão final deste artigo.

Como citado anteriormente, a metodologia a ser aplicada na analise e na elaboração da pesquisa que culminou com a produção deste artigo acadêmico, é o materialismo histórico dialético,em especial as idéias adotadas baseado na leitura de Ellen Meiksins Wood.No livro, “Democracia contra Capitalismo”ela parte da premissa de que o capitalismo é,em sua essência, incompatível com a democracia. Um capitalismo humano, “social” e eqüitativo seria mais irreal e utópico do que o socialismo. Assim, o projeto teórico do marxismo e sua crítica à economia de mercado seriam hoje – após o colapso dos regimes do leste europeu – mais oportunos do que nunca. Ellen Wood propõe a renovação do programa crítico do materialismo histórico pela redefinição se seu princípios básicos e de sua teoria de historia. Explora também o conceito de democracia no antigo e no mundo moderno, examinando e levantando questões sobre como o poder público pode ultrapassar os limites e ele impostos pelo regime do capital.

Ao utilizar o materialismo histórico dialético para pesquisar e discutir temas da história procuramos seus elementos contraditórios, buscando encontrar aquele elemento responsável pela sua transformação num novo fato, dando continuidade ao processo histórico. Como metodologia para a construção argumentativa deste artigo, pontuaremos o contexto histórico e social no que diz respeito especialmente às questões de gênero,propondo os elementos contarditórios que podem elucidar o tema central da referida pesquisa: mulheres,loucas nas primeiras décadas do século XX,na Bahia.

Como base para realização dessa pesquisa foi utilizado alguns livros relacionados sobre o tema,publicações médicas, monografias e dissertações. Portanto, o objetivo desde trabalho é a caracterização do contexto histórico no processo de transição para a modernidade a partir da segunda metade do século XIX, em especial posicionando as mulheres nos padrões de conduta e comportamento que definiam o papel e/ou o status de valor do ser feminino na Bahia urbana.

 A fonte primária utilizada como fundamento desta pesquisa, trata-se de uma edição da Gazeta Médica da Bahia, a primeira revista médica brasileira, estritamente voltada às publicações científicas, tendo entre os seus fundadores sete ilustres médicos da cidade da Bahia e o estudante de Medicina Antonio Pacifico Pereira.A GMBahia circulou regularmente entre 1866 e 1934, depois entre 1966 e 1972, com um número avulso em 1976. Em 1984, os professores Eurydice Pires de Sant’Anna (Escola de Biblioteconomia) e Rodolfo Teixeira (Faculdade de Medicina da Bahia) organizaram o índice cumulativo da GMBahia de 1866 a 1976, com a citação de todos os 3.870 trabalhos publicados naquele período. Mais recentemente, em 2002, foram digitalizados todos os trabalhos publicados até 1976 e alguns textos em livro-impresso, também pela Dra. Luciana Bastianelli da Gráfica CONTEXTO (Salvador, Bahia). Ao recomeçar a edição da GMBahia em 2004, a opção foi principiar pela compilação dos trabalhos que fundamentaram o ensino médico no Brasil, com conteúdos de maior cientificidade, as TESES DOUTORAIS DE TITULADOS PELA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA, DE 1840 a 1928. Em 2008, no ano das Comemorações do Bicentenário da FMB, com o apoio da Prof. Aldina Barral todos os números da GMBahia, de 1866 a 1984, compilados pela Dra. Luciana Bastianelli, foram disponibilizados no site da revista na internet, e esses, juntos aos conteúdos dos números mais recentes (a partir de 2004), podem ser livremente consultados por palavra-chave, ano, autor ou título.

2.Contexto

2.1.Loucura : breve histórico

 Na Europa, durante grande parte do periodo medieval, a lepra apresenta-se como um grande mal.A lepra sofre um processo de regressão (após anos de segregação em leprosários e o corte,após as cruzadas, dos focos orientais de infecção), e os bens fundiários dos antigos leprosários vão tornando-se espaços vazios onde a exclusão do leproso era um aforma de salvação, de comunhão, segundo a Igreja.A estrutura do abandono, da exclusão permance, mesmo com o fim da imagem do leproso.A amatematica, a lógica da exclusão é retomada nos séculos seguintes(XV,XVI…), em que os pobres, vagabundos, presidiários e cabeças alienadas assumirão o papel abandonado pelo leproso,logicamente dentro deuma nova cultura, em tempo e contexto diferente, mas mantendo o cerne da exclusão e redenção espiritual.

  O tema loucura ganha visibilidade, no Brasil, no contexto inquisitorial, em que as visitações do final do século XVI discutem a difícil distinção entre heresia e loucura. Constatações de casos de loucura eram descritas de modo superficial, já que a própria Inquisição.Com a necessidade de estender e aplicar a cura espiritual à sociedade colonial, a também necessária “cura dos loucos” estavam assim restritas à cárceres específicos, acompanhados de aplicações médicas, mesmo que neste período, tanto a medicina, quanto os poderes eclesiásticos ainda não dispunham de conhecimento suficiente sobre, inclusive, o que poderia ser atribuído às patologias e tratamentos mentais.

 No bojo das epidemias, doenças, e temores medievais, os aspectos que configuravam doenças mentais estavam relacionadas às tentativas de purificação, associadas aos dogmas cristãos de moralidade e conduta espiritual. Foucalt, em “História da Loucura”, nos oferece a visão clássica sobre a loucura, como no trecho a seguir: 

“Esse fenômeno é a loucura. Mas será necessário um longo momento de latência, quase dois séculos,para que esse novo espantalho,que sucede à lepra nos medos seculares,suscite como ela reações de divisão,de exclusão,de purificação que no entanto lhe são aparentadas de uma maneira bem evidente.Antes de a loucura ser dominada,por volta da metade do século XVII, antes que se ressuscitem,em seu favor,velhos ritos, ela tinha estado ligada, obstinadamente,a todas as experiências maiores da Renascença.”(FOUCAULT,2005).

 Os ideais de moralização advindos da expansão e abrangência da Igreja na vida publica e privada na colônia portuguesa na América, a partir do séculos XVI, estendem-se de forma evidente aos âmbitos familiares, e neste contexto serão a sexualidade e a condutas femininas, os baluartes da cristandade na proposta eclesiástica de sociedade.

 A crescente importância e abrangência das ciências a partir do século XIX foram fundamentais na construção de novas estratégias de disciplinarização e moralização da sociedade, dos espaços urbanos emergentes e, obviamente, dentro deste contexto, as mulheres. Magali Engel, sugere a imagem de perigo que em torno da sexualidade feminina e como os “novos padrões de moralidade para os comportamentos afetivos,sexuais e sociais”(ENGEL,1989), são propostos como base desse ideário civilizatório, apoiados pela comunidade cientifica e médica:

 “Evidenciando o comprometimento da psiquiatria com as políticas de controle social propostas pelas primeiras administrações republicanas, o universo temático privilegiado pelos especialistas brasileiros na construção da loucura como doença mental deixa entrever as principais áreas de intervenção das estratégias normatizadoras: os comportamentos sexuais,as relações de trabalho,a segurança publica,as condutas individuais e as manifestações coletivas de carater religioso,social,político etc.”(ENGEL,1989).

O que pode determinar e isolar a loucura não é tanto uma ciência medica quanto uma consciência suscetível de escândalo.Neste aspecto, os representantes da Igreja tem uma situação priviliegiada,mas ainda que os representantes do Estado para fazer o julgamento de loucura.Algo que perdura, apesar das mudanças jurídicas até o século XIX.

 

2.2.Bahia, século XIX – XX

A partir do século XIX e suas pretensas mudanças e adequações, a educação, a religião e a ciência emergente ganharam um fundamental papel nas estratégias e relações de poder para impor um comportamento social  individual e coletivamente aceitável.

O presente trabalho pretende investigar os comportamentos e condutas femininas na Bahia do final do século XIX e inicio do século XX, bem como situar o contexto histórico e social onde o cientificismo ganha notoriedade para justificar e legitimar os padrões modernos de conduta social, em especial nas abordagens médicas, psiquiátricas e criminais.O interesse pelo tema surgiu durante o estudo sobre a Bahia colonial e os casos violentos de reação de mulheres às relações de concubinato dos seus maridos.No segundo momento, a leitura da obra “ História da Vida Privada no Brasil Volume 3”, em especial o capítulo escrito por Magali Engel intitulado “Psiquiatria e Feminilidade” e o “Mulheres pobre e violência urbana no Brasil urbano” escrito por Rachel Soibet.Tais textos auxiliaram a delimitação do contexto e do tema de interesse: mulheres no Brasil urbano na virada do século XIX.

O século XIX foi um período de mudanças. Momento cujas instituições sociais, culturais, políticas, econômicas e religiosas movimentavam-se para a adequação ou para a resistência às novas regras do capitalismo central. Entretanto, o processo de emancipação do Brasil e do término da escravidão fomentaram reestruturações na sociedade brasileira e baiana.

 A Bahia, nesse período, passava por um processo de transição do modelo oligárquico agro-exportador para o comercial exportador de matérias-primas e bens industriais de necessidade secundária.Com a crise do açúcar baiano oriunda da conquista do mercado pelo açúcar das Antilhas, essa classe dominante entra em decadência voltando-se para outras atividades políticas – econômicas. O comércio tornou-se uma saída de investimento oportuna; principalmente pelo incentivo do capital externo, dentro de suas estratégias geo-políticas e econômicas. A partir da segunda metade do século XIX ocorreram novas investidas do capital externo no Brasil e particularmente na Bahia, que gerou uma onda modernizadora. O projeto de modernização incluía, basicamente, os setores que estavam deficientes para atender às necessidades das elites locais e do capital externo, eminentemente europeu (inglês e francês). Eram três as principais preocupações: organizar o setor de transportes, o setor financeiro e o setor industrial. Outros setores econômicos e demais grupos sociais ficaram em segundo plano.

Em meados do século XIX, os baianos viviam em habitações pouco salutares, conviviam com a sujeira e com a pobreza. A população estava exposta, cotidianamente, aos riscos da fome e de doenças, sendo um alvo fácil para epidemias e endemias.A concepção de medicina urbana da época, não era de uma medicina centrada nos homens, corpos e organismos, mas, no meio que o cercava; o ar, a água, a estrutura das ruas, ou seja, uma medicina que priorizava as condições de vida, sem necessariamente observar às conseqüências das reestruturações urbanísticas na vida dos homens.

 As idéias normatizantes que ditavam a conduta mais adequada aos padrões de uma pretensa nova sociedade brasileira estavam intrisicamente ligada aos novos contextos políticos, sócio-econômicos, e culturais a partir da segunda metade do século XIX. A modernidade apresentava-se como inevitável, necessária, e os pressupostos desse ideal deveriam ser seguidos.Deste modo a reestruturação da ordem social tradicional fez-se necessária para adequar-se a nova ordem social que surgia, forjando assim a manutenção das estruturas de poder dominantes, e em tese, contribuindo para a construção da idéia de nação e modernidade que imperava no período.

 A partir de 1850, marcado pelo fim do tráfico negreiro, a fundação de novos espaços urbanos, o advento de novas tecnologias como telefone, o telegrafo, lâmpadas incandecentes, o liberalismo político que influenciava as independências na América e Europa, o processo de abolição da escravatura e as novas técnicas e conhecimentos científicos advindos dos trabalhos de Darwin,Mendel e outros cientistas, geraram um panorama recheado de contradições.Um lento e gradual processo de transição que implicaria também em rearranjados no já existente domínio das condições de existência, a fim de caber no ideal de modernidade que era vislumbrada pelos intelectuais e a classe dominante local para a “nascente nação” brasileira.

Nesta perspectiva, a antropologia criminal, a medicina legal, a psiquiatria, os elementos de coerção social (leis,policia,ordem publica,criminalistas) são parâmetros de análise que servem como ponto de partida para classificar as condutas,os sujeitos e os cenários de marginalização, sendo reflexões e reflexos da disputa entre o modelo tradicional e o novo modelo de mundo de instituições, como a Igreja,a família e o domínio senhorial (patriarcalismo).

Ao posicionarmos a loucura, a psiquiatria, os aspectos da família e do cientificismo no final do século XIX poderemos discutir sobre os aspectos que tornavam algumas mulheres mais sociavéis e aceitavéis do que outras.Portanto, o termo condenação e loucura é, neste sentido aplicado de forma mais geral,do repreensivel, tanto do ponto de vista cultural, médico, como juridicamente.

2.3.Histórico da Psiquiatria na Bahia

O histórico da psiquiatria na Bahia remonta ao ano de 1808. Primeiro, pela Carta Régia de 18 de fevereiro pelo Príncipe Regente D. João, que cria o Ensino Médico no Brasil;lembremos que D. João era Príncipe Regente porque sua mãe,D. Maria I, a Louca, tinha perdido a razão, desde 1792,aparentemente em reação ao falecimento do marido e do filho primog O advento de uma cadeira de psiquiatria parece ter influenciado positivamente a produção científica. Na década de 1881-1890, foram apresentadas cinqüenta e nove teses de teor neuropsiquiátrico, em sua maioria estritamente neurológicas. Mas encontramos oito, versando sobre alcoolismo, cinco sobre hipnose e sugestão e, em 1890, duas sobre A Hysteria no Homem.

Nas décadas subseqüentes à II Guerra Mundial, Salvador multiplicou sua população, às custas de migração desordenada, que lhe intensificou a miséria e a violência e lhe desestruturou valores e costumes, tudo isso entremeado por profundas modificações econômicas e políticas. É quandosurgem os sanatórios psiquiátricos – Sanatório Bahia, em 1944; Sanatório São Paulo, em 1953; Casa de Saúde Santa  Mônica, em 1962; e, por último, a Casa de Saúde Ana Nery, em 1966. Servem primordialmente a uma clientela previdenciária, que apresenta grande incremento com o advento, na Capital eno Recôncavo, da Petrobrás; e representam substancial aumento na demanda por profissionais em psiquiatria.

3.Análise e Resultados

Segundo Matta, no contexto colonial desenvolveu-se uma sociedade cujo poder estava baseado no prestígio e na capacidade dos poderosos em privilegiar e favorecer os aliados e dependentes. Três eram as principais fontes deste poder; a primeira delas era a propriedade da terra que determinava quem poderia administrar os recursos naturais e o fundamental da economia e sociedade;outra fonte eram as ligações e alianças com outros poderosos, principalmente com o governo,pois daí vinha a capacidade de atender a muitos dependentes e aliados com favores e  vantagens; e finalmente as ligações com o exterior, com a metrópole, mercantil no início, ou a capitalista posteriormente, que determinavam as linhas gerais da dinâmica econômica e social da sociedade da época, e de cuja ligação e favorecimento poderia depender a influência de um poderoso local e sua capacidade de atender às classes dependentes e correligionários.Era portanto uma sociedade baseada no aristocrata, no “homem bom”, “especial”, que por suas ligações e prestígio, inclusive com Deus através da Igreja, era capaz de proteger,assistir, assim como exigir e explorar as pessoas de classes subalterna.

Esta sociedade senhorial e patriarcal, mantinha o poder nas mãos do senhor de engenho, com autoridade absoluta,e submetia todos ao seu redor: mulher, filhos, agregados e qualquer um que habitasse seus domínios, e de quem detivesse as condições de existência.Com os casamentos endogâmicos , as famílias senhorias ampliavam sua área de influencia, aumentando também suas terra, escravos e bens, aumentando a sua lucratividade e legitimando seus poderes, advindos de alianças, de conchavos e da fidelidade de populações dependentes, que criam uma condição para que este senhor seja absoluto.Dentro desta pesperctiva,as mulheres pouco saiam de suas casas, empregando seu tempo no ambiente restrito e privado.Tal condição feminina, negava-se o uso pleno de sua sexualidade,vivendo sob normas rígidas de conduta, normatizados culturalmente e pela função ordenadora da Igreja.

O significado da loucura para a ciência medica no final do século XIX, inicia-se no processo de discussão dos fenômenos psiquiátricos e da própria definição da loucura, associada às teorias sobre “degeneração”.No âmbito social e popular , a loucura era vista como produto da degeneração proviniente da intensificação da vida urbana e do cotidiano citadino.

            Em relação às conexões entre a psiquiatria e o projeto modernizador e normatizador do Brasil, temos a hipótese de que a psiquiatria,dentro da crescente popularização do cientificismo,ganha grande importância para o Estado à medida que associada às questões sociais,tem o objetivo de “curar a sociedade” de suas mazelas.

Os desvios comportamentais considerados pela ciência medica tinha ligação direta com os comportamentos em torno da sexualidade,da oposição política, da mestiçagem, de higiene e urbanidade.Dentre as principais influencias teóricas nos diagnósticos e no tratamento de desvios comportamentais e loucura, estão as teorias de Lambroso,Pinel,Nina Rodrigues e Juliano Moreira, dentre outros.

            O contingente de mulheres consideradas loucas, degeneradas e os possíveis diagnósticos da loucura em mulheres (histeria,o ciclo menstrual como doença e etc.), e as relações dos diagnósticos com a posição social,econômica e intelectual, podem ser verificados segundo o acesso à entrada nos livros de internação e dos prontuários das “casas de loucos”,bem como as discussões dentro das revistas medicas especializadas e jornais da época. A visão das mulheres “loucas e degeneradas” sobre a sua “condição”,  ficam por conta dos possíveis registros e depoimentos encontrados na documentação estudada.

Através da analise da fonte, um artigo publicado em 1901,na Gazeta Médica da Bahia, pelo renomado Juliano Moreira, nos ajuda a compreender as questões que envolviam a sexualidade,a raça,a loucura e o gênero dentro de uma sociedade baiana senhorial.Retratando um discurso realizado no Congresso de Medicina de Paris, Juliano nos dá um panorama geral sobre a visão e dimensão que é dada a psiquiatria na época.

Juliano Moreira nasce em 1873, foi médico e um dos pioneiros da psiquiatria brasileira. O primeiro professor universitário a citar e incorporar a teoria psicanalítica no seu ensino na Faculdade de Medicina.Nascido em Salvador, afro-descendente e de origem pobre, entrou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, formando-se aos dezoito anos, em 1891, e se tornando professor da Faculdade.Já em 1900 representa o Brasil em congressos internacionais: em Paris, neste ano – sendo também eleito Presidente Honorário do 4º Congresso Internacional de assistência a alienados, em Berlim; também foi congressista brasileiro em Lisboa, em 1906; Milão e Amsterdão, em 1907; Londres e Bruxelas, em 1913.*

Defendeu a idéia de que a origem das doenças mentais se devia a fatores físicos e situacionais, como a falta de higiene e falta de acesso à educação, contrariando o pensamento racista em voga no meio acadêmico, que atribuia os problemas psicológicos do Brasil à miscigenação. Foi importante representante internacional da Psiquiatria brasileira.

Na aurora do século XIX, a psiquiatria torna-se uma medicina de tipo especial, forjada na tensão entre a atenção às dimensões física individual e moral e que, por essa via, conforma seu objeto como uma das formas modernas de diferenciação social: a diferença instituída na loucura tornada doença mental. Na cultura ocidental moderna, a sexualidade é parâmetro de aferição das características humanas, e de tal abrangência que é construída com base numa solução que –assim como no caso da doença mental – está atenta a um só tempo para as dimensões do corpo e da mente. É dessa contradição entre o físico e a moral (individual e social) que a sexualidade se depreendeu e onde se fixa.É nessa dialética cotidiana em que vive a sociedade é que estabelecem-se a continuidade da dominação por meio de uma pretensa nova sociedade moderna, porém, ainda seu cerne, senhorial.

Neste contexto, por representações originalmente medievais, a mulher era um ser naturalmente impuro e pecaminoso e tinha como função primordial a procriação. O seu corpo era o espaço de lutas entre Deus e o diabo, portanto estavam, as mulheres, sujeitas a afecções, a exemplo da menstruação, parturição, gravidez, corrimentos, dentre outros, apenas explicáveis pela escatologia medieval. A partir do final do século XVIII, estes seres licenciosos precisavam ser conhecidos nas suas entranhas para que fossem submetidos a uma normatização, sendo, assim, esvaziados de todo e qualquer poder que ameaçasse a ordem dominante. Os aspectos inerentes ao universo feminino, incompreendidos na sua quase totalidade, tais como prenhez, parturição e cura de moléstias, deveriam ser conhecidos e controlados por outra esfera do saber: de preferência a dos homens da ciência.Os moldes da loucura caem como uma luva e servem como justificativa pra reposicionar a mulher ao seu papel de origem no mundo senhorial, porem projetado no mundo burguês que galgava espaço.

Do ponto de vista de Juliano Moreira, portanto, a doença mental, “como desvio da normalidade que é, é uma exceção biológica” e, nesse sentido, só poderia ser observada mediante a consideração preponderante da esfera orgânica do indivíduo. Diferentemente de Juliano Moreira, entretanto, o conhecimento psiquiátrico da época estabelecia uma relação de determinação entre raça e aparecimento de doença mental. O pensamento de Juliano Moreira sobre a dimensão físico-orgânica das doenças mentais, suas causas e evolução, estava de acordo com uma perspectiva inovadora para o pensamento psiquiátrico brasileiro. Tratava se da defesa de um projeto de sociedade moralmente igualitária e profilática em relação às possíveis diferenças físico-orgânicas individuais que, apesar de poderem atingir uma parcela da população, eram independentes do clima e da constituição racial, e de gênero.

4.Conclusão

O estudo realizado foi importante por posicionar a Bahia no contexto histórico da historia das ciências e das pretensas mudanças advindas com a modernidade.Esta pesquisa me proporcionou contato com a produção historiográfica de um artigo, a elaboração das etapas principais, fontes e contexto histórico. Também foi de grande valor o contato com novas metodologias, até então pouco trabalhada como o materialismo histórico e sua proposta de analise.

Estudar a Gazeta Médica como fonte, e Juliano Moreira com o seu foco renovador sobre as questões de raça e sexualidade foi fundamental para quebrar paradigmas de que como nação em ascensão não produzíamos ciência, cientistas e doutores conectados com as pesquisas e renovadas teorias do inicio do século XX.

Como um trabalho inicial, porem superficial, pretendo dar continuidade ao tema, relacionando sempre a historia das mulheres com a historia das ciências.Por interesse,pretendo me aprofundar na metodologia marxista, aumento a leitura de teóricos sobre a referida abordagem,pois creio que a falta de tato e tempo não permitiu que eu adequasse de forma mais eficiente a metodologia ao tratamento das fontes.

5.Referências Bibliográficas

MATTOSO, Katia M. de Queiroz. Bahia, século XIX, uma província no Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

FOUCALT, Michel. História da loucura. Editora Perspectiva,2005,São Paulo

 GAZETA MÉDICA DA BAHIA, Ed.Jan,1876 à Jun,1934

 SCHWARCZ, Lilia Moritz. Espetáculo das raças, O – Cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870 – 1930. Companhia das Letras

 MELLO E SOUZA, Laura. (Org.) História da vida privada no Brasil. v.1 São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

SAFIOTTI. B. I. Heleieth. A mulher na sociedade de classes, mito ou realidade

WOOD Ellen.Democracia Contra O Capitalismo-A Renovaçao Do Materialismo Histórico São Paulo,Ed.Boitempo,2003

4 Comentários

  1. eudesamigo said,

    Oi. Falta postar seu texto. Clique em editar e escreva seu artigo. Observe as orientações da ABNT referentes a normas para elaboraçãod e artigos acadêmicos. Lembre-se das orientações em sala de aula.

  2. sobrehumanas said,

    Boa Tarde Eudes, é para postar o arquivo em forma de artigo?O artigo ñ será um a entrega final?Esta será a única opção?E Alfredo?

  3. eudesamigo said,

    Oi. O objetivo é a construção de um artigo. Esse é o texto oficial. É importante realizar as recomendações estruturais em seu texto. Falta analisar sua fonte e suas conclusões.

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